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Abrigo Nuclear (1981) - Roberto Pires

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Zé da Adega
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Abrigo Nuclear (1981) - Roberto Pires

Mensagem por Zé da Adega em Sex Jan 06 2017, 03:20



https://pt.wikipedia.org/wiki/Abrigo_Nuclear
http://www.imdb.com/title/tt0194640/



Sinopse oficial no idioma PT-BR: No futuro, em virtude da poluição radioativa da superfície da Terra, a população se vê obrigada a viver em abrigos nucleares subterrâneos, que continuam a utilizar a energia nuclear como fonte energética principal, o que contribui para o aumento desse tipo de poluição. Um grupo revolucionário prepara um movimento para a recuperação da superfície terrestre com o objetivo de que, num futuro distante, seus descendentes possam abandonar o abrigo nuclear subterrâneo e voltar a viver, como seus antepassados, sobre a superfície da Terra.

Trailer (feito por mim):



Versão oficial restaurada (HD) no canal do You Tube do Instituto Memoria Roberto Pires, instituto criado pelo filho do falecido realizador Roberto Pires: https://www.youtube.com/watch?v=k26fcL1Dx4E

O link acima é o filme completo gratuito (aparentemente oficial, carregado no You Tube pelo filho do cineasta).



Curiosidades:

“O objetivo principal do Instituto Memória Roberto Pires é trabalhar na preservação de todas as obras do cinema baiano que correm o risco de se perder. Além dos filmes de meu pai que restam ser restaurados, queremos resgatar trabalhos de Alexandre Robatto, Leão Rosemberg, Agnaldo Siri, e todos os outros cineastas cujas obras não recebem o devido cuidado”, explica Petrus Pires. “Restaurar películas com quarenta, cinqüenta anos de idade não é um processo simples. Queremos aproveitar a experiência que ganhamos com os filmes de Roberto para ajudar a conservar a memória do cinema baiano para as próximas gerações”.(...)

ROBERTO PIRES E A ENERGIA NUCLEAR

Roberto Pires, cineasta pioneiro no cinema de longa-metragem baiano, desde a década de 1970, militava contra a energia nuclear e seus malefícios, e contou com o apoio do cientista César Lattes.

O diretor realizou documentários sobre o tema, além da ficção científica “Abrigo Nuclear” (l1981), ao mesmo tempo em que o governo militar anunciava a construção das usinas de Angra. Para “Abrigo Nuclear”, Roberto Pires chegou a construir um estúdio com material reciclável que simulava todo o abrigo.

Na década de 1980, o diretor se muda com sua família para Brasília com o objetivo de realizar o projeto do filme “Inverno Nuclear”. O roteiro do filme previa uma nuvem nuclear que faria nevar em Brasília, infelizmente, o projeto não foi aprovado e acabou sendo arquivado.

Ainda com a energia nuclear na cabeça, Roberto Pires não perdeu tempo quando soube do acidente radiológico ocorrido em Goiânia, em 1987. O acidente com o césio – e suas milhares de vítimas – é a maior tragédia radioativa acontecida no Brasil.

O cineasta foi até a cidade para ter contato e entrevistar os sobreviventes da radiação do Césio 137. Com um roteiro que buscou ser fiel aos fatos, em 1990, foi lançado o filme “Césio 137 – O pesadelo de Goiânia”. No mesmo ano, o filme levou seis candangos no Festival de Brasília, demonstrando não só a sua força como registro da tragédia, mas também como excelente obra cinematográfica. Até hoje, o filme serve como referência para escolas e movimentos ecológicos.

Em 2001, Roberto Pires morre vítima de um câncer, que se acredita ter sido contraído quando o cineasta resolveu filmar sozinho o local onde foi encontrada a cápsula radioativa de césio, no antigo aterro de lixo hospitalar, em Goiânia.

Fonte: http://www.doistercos.com.br/instituto-memoria-roberto-pires-e-lancado-em-salvador/

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Zé da Adega
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Re: Abrigo Nuclear (1981) - Roberto Pires

Mensagem por Zé da Adega em Sex Jan 06 2017, 03:57

Cinema de intervenção



O realizador brasileiro Roberto Pires foi um cineasta de intervenção, tal como o realizador norte-americano Stanley Kramer. Ambos os realizadores são dignos do respeito e admiração por qualquer cinéfilo, com base no risco pessoal que correram, para tentar melhorar o mundo, através dos seus filmes.

O que tem aqui maior importância é que ambos os realizadores, foram também produtores, e pagando os filmes deles ou dos outros, do seu próprio bolso, ajudaram a existência do Cinema Livre, não infectado pela podridão da fórmula de Hollywood.



No caso do Roberto Pires, ele foi filmar sozinho o aterro sanitário, contaminado com radioactividade, proveniente de material hospitalar de Raios X abandonado, fonte do isótopo radioactivo do Césio-137. A família e colegas dizem que a morte por cancro que se seguiu foi causada por essa exposição a níveis perigosos de radioactividade. Portanto temos aqui um realizador que eventualmente morreu em nome do cinema, por exposição a radioactividade.

No caso do Stanley Kramer, ele corria perigo pessoal e profissional, devido à perseguição política da ditadura (bi-partidária) do estado policial norte-americano, em que os actores, argumentistas, realizadores e produtores norte-americanos corriam grande perigo pessoal, por desafiar o "Macartismo".


Joseph McCarthy, senador por Wisconsin (1947-1957)

Neste período da história, a ditadura (bi-partidária) norte-americana foi muito similar às purgas estalinistas da ditadura (mono-partidária) da União Soviética, e temos aqui um bom exemplo, dentro e fora do cinema, da similaridade entre os regimes totalitários da União Soviética e dos EUA, que eram parecidos e estavam bem um para o outro com mísseis nucleares apontados uns aos outros.

Ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Macartismo

O realizador Stanley Kramer pagava do seu bolso filmes com realizadores, argumentistas e actores, que estavam na "blacklist" do regime totalitário norte-americano, era uma lista semelhante às listas da PIDE em Portugal ou às listas da Stasi na R.D.A., que continham nomes de inimigos políticos do regime (neste caso o regime norte-americano).

Infelizmente ambos os realizadores Stanley Kramer e Roberto Pires, apesar de bom coração e de boas intenções, não tinham muito jeito para o cinema. Antes de avançar para este trabalho do Roberto Pires, irei fechar a comparação entre estes dois grandes homens, analisando a grande falha do realizador Stanley Kramer no filme "Guess Who's Coming to Dinner".



Há uns anos atrás, o grandíssimo comentador Rui Sousa, num outro fórum de cinema, apresentou/criticou este filme, e de seguida eu comentei lá que o filme foi um fiasco por ser primitivo, artificial e bota-de-elástico.

Qual foi o problema desse filme?

O coitado do Stanley Kramer foi fazer campanha a exibir o filme em faculdades dos EUA, e depois ficou triste com a reacção dos jovens de 18-23 anos em não gostarem do filme.

O desgraçado do Stanley Kramer fez um filme de intervenção para combater o racismo na América, e depois ficou triste sem saber porque os jovens não gostaram do filme...

Mas eu explico:

Basicamente esse filme era uma merda e uma ofensa à inteligência dos universitários americanos. O argumento do filme é ridículo e totalmente irrealista, muito ofensivo para um miúdo universitário na casa dos 20 anos. O povo americano estava traumatizado com a censura puritana do Production Code, que tinha acabado de cair, e finalmente o povo americano teve acesso a cinema livre. No mesmo ano de 1967 foi lançado outro filme com o mesmo actor Sidney Poitier chamado "In the Heat of the Night", que é um filme sério com realismo, também de intervenção contra o racismo, mas que não ofende a inteligência aos espectadores norte-americanos universitários.



Pessoalmente acho o filme "Guess Who's Coming to Dinner" um insulto à minha inteligência, não apenas pela má qualidade de ser filmado num estúdio, mas pela estupidez do argumento, que parece ter sido escrito por algum padre ou freira, que não conhece o mundo (o protagonista negro é retratado como um super-herói, com super-poderes, estilo Capitão Kirk). O Stanley Kramer fez bom cinema de intervenção contra o racismo no filme "The Defiant Ones" de 1958, mas aqui em 1967 ele já estava velhote e não percebeu que o puritanismo da censura moral do Production Code tinha caído, e que os jovens americanos já não tinham de gramar com a corrente do artificialismo de Hollywood.



Ora bem, agora chegou a altura de eu dizer mal do realizador brasileiro Roberto Pires... o que não me agrada nada ter de fazer... mas tem de ser...

Este filme "Abrigo Nuclear" é uma entrada interessante e obrigatória para os amantes de filmes apocalípticos sérios e de ficção científica filosófica pura e dura, e tem muito mais qualidade e maturidade do que o "Euro Trash" italiano do mesmo período, mas existe aqui uma falha enorme e muito grave no argumento e enredo.

É que os diálogos parecem saídos de uma dobragem da RTP de um desenho animado pueril-infantil estilo "Power Rangers", isto é terrível... quando a má da fita fala com os seus compinchas, parece que estou a ler uma banda desenhada do Rato Mickey dos anos 70, ou pior... Estes diálogos parecem saídos de uma animação da Disney para crianças dos 3 aos 5 anos de idade, em que a rainha má explica várias vezes os seus planos maquievélicos, antes de os concretizar.

Eu ainda pensei se o cineasta estaria a tentar fazer intervenção social (contra as centrais de fissão nuclear), junto de crianças entre os 3 e os 5 anos de idade, mas fui verificar e no Brasil o filme tem classificação etária M/14.

Não percebo que diálogos infantis vêm a ser estes... quando eu tinha 6 anos de idade via na RTP o "Conan, o rapaz do futuro", que voltei a rever 2ª vez em adulto há poucos anos, e essa animação nipónica não continha diálogos pueris (estilo o lixo do Power Rangers) como neste filme para maiores de 14 anos. Não percebo...



O problema não está na premissa/enredo, mas apenas nos diálogos infantis.

Eu até tenho uma teoria sobre esta falha/estupidez dos diálogos do filme...



No início do ano ouvi alguns capítulos do Rádio-teatro da BBC dos anos 70, em que adaptaram esta famosa série de livros "Foundation", do Isaac Asimov, sobre um Império Galáctico do futuro. O radio-teatro é diferente de um audiobook, onde apenas leêm o livro, a BBC teve de alterar os diálogos dos actores, de forma a incluirem uma narrativa/descrição do ambiente envolvente, no meio dos diálogos, de forma aos rapazinhos ingleses dos anos 70 acompanharem o tele-teatro (nunca fizeram um filme da saga Foundation do Isaac Asimov).

A falha dos diálogos deste "Abrigo Nuclear" é que até funcionariam no papel ou num tele-teatro da BBC (onde o ouvinte não está a ver cenas visuais), mas não são compatíveis com a linguagem do cinema (ou sequer da Banda Desenhada). O resultado é um insulto à inteligência pior do que os diálogos das animações infantis que eu via com 6 anos de idade.



Sinceramente eu admiro este filme e o esforço do realizador, mas tenho de dar na cabeça à estupidez/infantilidade dos diálogos.

Atenção que o filme tem partes muito bem conseguidas, com uma bonita cinematografia no bunker, e boas filmagens na superfície. O meu respeito e admiração por este realizador de intervenção não está em causa, mas lembrem-se que eu arrasei o filme "Interstellar" do Christopher Nolan, como sendo uma parvoíce infantil e um insulto à minha inteligência, onde o protagonista se comportava como uma personagem do "Tio Patinhas" (Hehehe... Twisted Evil mas isso não foi neste fórum... Evil or Very Mad ). Eu sou muito tolerante no cinema e aceito muita coisa, como falta de meios e de dinheiro ou actores amadores, mas nunca aceitarei argumentos infantis, que não custam dinheiro a ninguém e bastaria um homem crescido riscar e corrigir a estupidez com o lápis.

Em conclusão, eu tenho de dizer mal do mal, para escrever sobre ele com honestidade, mas atenção que ao mesmo tempo aconselho o filme enquanto curiosidade muito original do cinema apocalíptico filosófico e adulto, como se fazia na década de 1970. Isto é mesmo a verdadeira corrente do termo "Hard Sci-Fi" (ficção científica pura e dura), que praticamente desapareceu dos cinemas na década de 1980.

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