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Lokis. Rękopis profesora Wittembacha (1970) - Janusz Majewski

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Zé da Adega
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Lokis. Rękopis profesora Wittembacha (1970) - Janusz Majewski

Mensagem por Zé da Adega em Sex Set 25 2015, 12:41

Notas para o Xploited Fórum:

a) Esta é uma crítica "velhinha", que nunca terminei/concluí desde que a escrevi há dois anos atrás no fórum DVD Mania (mas mesmo incompleta, já é uma crítica gigante, com um vídeo legendado por mim em português europeu). O filme não é de terror, eu diria que isto é mais gothic mistery. O argumento é um livro escrito no século XIX por um escritor francês talentoso, os estúdios cinematográficos polacos respeitavam a riqueza do livro, e por isso o filme é bom. A história deste filme é do mesmo autor do famoso livro Carmen, passado em Espanha. Já tinha referido aqui no fórum este filme, a propósito de pósters de cinema.

b) Em 2014 o estúdio polaco que produziu este filme, colocou o filme gratuitamente no You Tube, mas existe um senão: Não há legendas para o cut original polaco! A versão que eu vi foi o cut russo, que tem legendas.

Lokis. A Manuscript of Professor Wittembach



Título original: Lokis. Rękopis profesora Wittembacha
Título inglês: Lokis. A Manuscript of Professor Wittembach
Data de lançamento: 25 de Setembro de 1970 (Polónia)
Realizador: Janusz Majewski
Género(s): Mistério, Histórico, Drama
Duração: 95 min
IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0065994/
Wikipédia: http://en.wikipedia.org/wiki/Lokis_%281970_film%29


Sinopse:

Adaptação cinematográfica do clássico de literatura gótica homónimo, publicado em 1869 pelo escritor francês Prosper Mérimée. A reconsituição histórica da Lituânia rural do séc. XIX é apresentada ao espectador, pelos olhos do Professor Wittembach, clérigo alemão e especialista em linguística e etnologia, que mergulha numa história misteriosa, que sugere acontecimentos sobrenaturais.

Trailer:



Prémios:

1971 - Grand Prix International Fantastic Film Festival and Terror in Barcelona (Catalonia) for Janusz Majewski
1971 - Award for Production Design Festival Summer Film Lubusz Lagow for Tadeusz Wybulta
1971 - Award for Best Cinematography at the Festival Summer Film Lubusz Lagow for Stefan Matyjaszkiewicz

Livro e escritor:


Prosper Mérimée (1803-1870) - Escritor, Arqueólogo e Historiador.

Wikipédia: http://fr.wikipedia.org/wiki/Prosper_M%C3%A9rim%C3%A9e

Este escritor talvez seja mais conhecido pela sua obra Carmen, era um homem muito interessado em misticismo, história e o incomum ou estranho, foi ele quem traduziu para francês as obras russas de Nikolai Gogol, e tal como ele ou o Edgar Alan Poe, gostava de temas do fantástico.

Curiosidades:

Desenhos



Este filme conta com desenhos de Franciszek Starowieyski, desenhador lendário de pósters de cinema, vencedor de múltiplos prémios, e com direito a exposições em museus de inúmeros países.



1973 - Award, International Biennale of the Arts, São Paulo (Brazil)
1974 - Film poster award, Cannes Film Festival, Cannes (France)
1974 - 2nd Prize, International Biennial of Posters, Warsaw (Poland)
1978 - 2nd Prize, International Biennial of Posters, Warsaw (Poland)
1979 - Gold Plaque, International Film Festival, Chicago (USA)
1982 - Silver Hugo, Film poster competition
2000 - 3rd Prize, International Biennial of Posters, Warsaw (Poland)

Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Franciszek_Starowieyski

Sequência do filme, em que são usados os desenhos dele, com legendas CC, em português:



Cinematografia



Sendo um filme simultanente vencedor dos dois prémios de cinema polacos de melhor cinematografia e melhor direcção artística, e que utilizou os 3 palácios de Lancut, Oborach e Kozłówka, em conjunto com o Parque de Wilanów, poderão contar com encenação circular (circular staging) e filmagem imersiva. A imagem anterior é retirada de uma cena com operador de câmera, a rodar à volta dos actores. Na imagem seguinte, na mesma cena, podem ver o pormenor de uma criada ao longe, a sacudir um cobertor numa das janelas do palácio:



É também um filme que utiliza o reflexo de espelhos do palácio, ou de lentes dos óculos dos personagens:




Opinião

Obra-prima do Cinema e da Literatura Gótica



Normalmente utilizo o adjectivo obra-prima, apenas quando o filme é excelente a todos os níveis, e considero ser esse o caso aqui.

Essencialmente o Lokis, é dos géneros Ficção Histórica, Adaptação de Clássico da Literatura e Mistério. O Lokis não contém o género Terror.

Para terem uma ideia, este filme faz-me lembrar O Nome da Rosa, com Sean Connery:



A personagem principal do filme é o Professor Wittembach, esta personagem tem a função especial de ser os olhos, ouvidos e boca do espectador, o estrangeiro da Europa Ocidental, que se desloca à Lituânia e estranha os costumes.

O Professor Wittembach, um alemão que lecciona Linguística e Etnologia em Konigsberg, parte de Inglaterra em busca de um livro muito raro, que soube que existia na biblioteca particular do palácio do Conde Miguel Szémiot, na Lituânia.

Quando lá chega, o médico da família, conta-lhe que a função dele é cuidar da mãe do conde, que enlouqueceu 2 dias depois do casamento, quando numa caçada foi atacada por um Urso, que segundo ela, a terá violado, e quando o filho nasceu 9 meses depois (o actual Conde Miguel), queria que o matassem por achar que é um "homem-urso".



A história do filme e do livro não viola nenhuma lei da física, o que esta história faz é apresentar ao espectador ou leitor, duas escolhas. Uma interpretação racional e outra sobrenatural. E será o leitor/espectador a decidir como interpretar.

No caso desta cena, no livro (mas não no filme) é dito que a Condessa se casou por volta dos 12-14 anos de idade, e o acidente de caça ocorre dois dias após sua noite de nupcias. Ela desmaia durante o ataque, e recupera os sentidos com uma perna partida e a carne rasgada pelas garras do urso. Tendo em conta a tenra idade da Condessa, terá lógica e será compreensível, que ela tenha ficado traumatizada e enlouquecido a acreditar que o filho (o actual Conde Miguel), tenha alguma característica de Urso.

O filme expande esta cena em relação ao livro, pois introduz os desenhos. Devido à diferença de 100 anos entre o filme e o livro, e o facto de existir o desenho do ataque, é omitido o pormenor da idade da Condessa, por uma questão de bom senso, e é assumido que ela já seria maior de idade, pelos desenhos.

Existirão outros mistérios, que irão também apresentar as duas escolhas ao espectador: Interpretação racional ou sobrenatural?



O escritor inspirou-se nas lendas e folclore da Lituânia, acerca do tema do Homem-Urso. Estive a investigar e descobri que existe outra região do mundo, também com grande incidência de lendas do Homem-Urso, que é o País Basco de ambos os lados espanhol e francês dos Pirinéus. Existe uma teoria que explica que ambas as regiões dos Pirinéus e Lituânia, têm em comum o facto de há 40 mil anos atrás, terem sido os últimos redutos dos Neandertais, encurralados pelo Homo Sapiens, sem terem para onde fugir, e eram nessas duas regiões que existiam avistamentos de Neandertais pelo nossos antepassados, o que terá criado misticismo e lendas acerca do Homem-Urso.

Não será coincidência que no filme francês "O Último Neandertal", a acção começa na Lituânia e termina na Península Ibérica, sei disto porque já escrevi uma crítica desse filme.



Eu traduzi o 1º nome do Conde para português, é suposto assim ser, no livro francês é Michel, no livro russo é Mishka, etc. O Conde chama-se Miguel, pela mesma razão do Rato Mickey se chamar Mickey, e não ter outro nome. Na Rússia os ursos chamam-se todos Miguel (Mishka) que é um nome próprio de pessoa, apesar de existir a palavra russa para urso. A explicação é a mesma do Harry Potter ter medo de proferir o nome Valdemort. Há muito tempo atrás, antes da Rússia existir como tal, era tabú dizer a palavra urso em voz alta, devido a crenças populares e misticismos. Quem proferisse a palavra urso, morria. Então passou a chamar-se Miguel aos ursos. Já na Hungria o nome Miguel significa pequeno ratinho, e na língua inglesa Mickey significa Miguelito. Será coincidência que o Walt Disney tinha um sócio, co-criador da personagem, filho de um imigrante europeu?



Na Polónia e Lituânia o conceito de castelo não é o mesmo que é usado em Portugal, eu não estava a perceber isto, e fiquei preocupado por o livro francês falar no castelo do conde, e o filme polaco ter utilizado 3 palácios nas filmagens. Este é um filme da corrente cinematográfica realista, e seria para mim impensável uma falha desta magnitude. Mas após investigação já descobri o que se passa. Os palácios portugueses de Sintra ou o Hotel Palace do Buçaco, são considerados castelos para um polaco, mas para os portugueses são palácios, e para nós um castelo é uma fortificação defensiva com muralhas e torres. Por isso tenho utilizado o termo palácio, em vez de castelo.

Criei o seguinte excerto, filmado no quarto Brenna do piso térreo do "Castelo" de Łańcut:



Podem ver imagens do castelo, e deste mesmo quarto, onde isto foi filmado, na página oficial (em inglês), do referido "Castelo", que é também um museu, eles têm lá uma visita virtual em flash:

http://www.zamek-lancut.pl/en/CastleToday/VirtualTour

    Data/hora atual: Ter Dez 12 2017, 09:58