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Como Era Gostoso o Meu Francês (1971) - Nelson Pereira dos Santos

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Zé da Adega
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Como Era Gostoso o Meu Francês (1971) - Nelson Pereira dos Santos

Mensagem por Zé da Adega em Dom Jan 04 2015, 05:22

Observação: Texto escrito originalmente em Julho de 2013. Estou a partilhar aqui para mostrar um filme de qualidade acerca de canibalismo, em que os actores estão nús durante quase todo o filme, que foi submetido oficialmente aos Óscares da Academia e ao Festival de Cannes. "Exploitation" (se assim quiserem chamar) com extrema qualidade.

As várias referências ao cinema do bloco de leste da era soviética surgem, porque nessa altura eu andava maravilhado a descobrir e a comentar esse estilo de filmes e fiquei surpreendido por descobrir essa abordagem no cinema brasileiro.



Título original: Como Era Gostoso o Meu Francês
Título internacional inglês: How Tasty Was My Little Frenchman
Data de lançamento: 1971
Realizador: Nelson Pereira dos Santos
Género(s): Drama, Aventura, Histórico
Duração: 84 min
IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0066936/
Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Como_Era_Gostoso_o_Meu_Franc%C3%AAs

Sinopse:

Filme sem precedentes na história do Cinema Mundial, que enfrentou a censura religiosa-moral do Cinema Mundial, para apresentar uma obra histórica acerca do início da colonização do Brasil, no séc. XVI por parte dos portugueses e franceses, inimigos mortais, quer na Europa, quer no Novo Mundo.

Pela excelente reconstituição histórica da colonização portuguesa do Brasil, foi desqualificado do Festival de Cinema de Cannes, devido ao realismo da nudez, que ultrapassou até o nível de realismo cinematográfico do gigante de Cinema da União Soviética, que impunha o realismo de cinema por lei, mas que também não estava ainda moralmente preparado para o nível de nudez, que este corajoso filme brasileiro apresentou.

É a história dramática dos últimos oito meses de vida de um francês capturado pelos índios Tupi, que irá ser comido num ritual de canabalismo.

Excerto:




Prémios e nomeações no idioma "brasileiro" (português PT-BR):

Festival de Berlim 1971 (Alemanha)

   Indicado ao Urso de Ouro.


Festival de Brasília 1971 (Brasil)

   Venceu nas categorias de melhor roteiro, melhor diálogo e melhor cenografia.

Troféu APCA 1973 (Brasil)

   Venceu na categoria de melhor atriz revelação (Ana Maria Magalhães).

Nota/comentário (pessoal): Entrada oficial, mas recusada simultanemante nos Óscares da Academia de Hollywood e no Festival de Cannes, por conter nudez. A supreendente recusa de Cannes é uma nódoa lamentável e vergonhosa numa Europa ainda retrógada e subordinada aos tabús religiosos e morais da Idade das Trevas. Já a recusa norte-americana era previsível e espectável, devido à falta de credibilidade e liberdade (no cinema e não só) do país em questão.


Curiosidades:

A data do final do séc. XVI apresentada simultaneamente no IMDB e wikipedia (multi-lingua) é errónea, absurda e contrária ao filme.

Na verdade, a acção do filme situa-se entre 1555 e 1560, nas proximidades do Rio de Janeiro, na altura uma colónia francesa.



Este mapa francês genuíno, histórico e autêntico, datado do ano 1555, da região do Rio de Janeiro, mostra a região francesa do Rio de Janeiro com a serra do Pao de Açucar, na época ainda uma ilha, antes da terraplanagem do séc. XVIII. No mapa, a serra do Pão de Açucar é descrita como "Pot de Beurre" (Pote de Manteiga?)

Ocupação francesa do Rio de Janeiro: http://pt.wikipedia.org/wiki/Fran%C3%A7a_Ant%C3%A1rtica

Este filme possui uma componente histórica muito poderosa, muito para além do que seria expectável num simples filme, baseada em documentos e relatos multinacionais da época, incluindo governadores portugueses, exploradores franceses e alemães.

Dois excertos escolhidos por mim, pelo explorador alemão Hans Staden:

Eu, Hans Staden de Homberg-em-Hessen, resolvi visitar a Índia. Saí de Bremem para os Países Baixos e achei, em Campon, navios que pretendiam tomar carga de sal em Portugal. Embarquei e, a 29 de Abril de 1547, chegávamos a Setúbal.

Voltando da guerra, trouxeram prisioneiros. Levaram-nos para sua cabana: mas a muitos feridos desembarcaram e os mataram logo, cortaram-nos em pedaços e assaram a carne (...) Um era português (...) O outro chamava-se Hyeronimus; este foi assado de noite.

Nota pessoal: Considero este filme muito poderoso e de grande interesse para os portugueses.


Cunhambebe

http://pt.wikipedia.org/wiki/Cunhambebe

Este líder histórico dos Tupinambá, muito referenciado no filme, devorou pessoalmente 60 portugueses, quiçá terá assado no espeto algum antepassado, por exemplo um tio n-tetravô dos leitores do fórum?

Pessoalmente já conhecia esta personagem histórica a partir da série de jogos de estratégia Civilization. Mas não sabia que comia portugueses assados no espeto, apenas porque ele era aliado dos franceses.

Realismo cinematográfico brasileiro na colonização portuguesa do séc. XVI



Várias das imagens contém nudez e na verdade o difícil foi encontrar cenas sem nudez, quando tirei screenshots.



Este filme é muito poderoso... é único, original, pioneiro e à frente do seu tempo, até em todo o panorama mundial, de qualquer país do mundo que tenha feito cinema.

Do Cinema do Brasil conheço muito pouca coisa, e do pouco que conheço, mesmo os filmes brasilseiros famosos e populares em todo o mundo, tenho tendência a desgostar, apenas por questão de gostos pessoais e de não fazerem o meu estilo. Não se tratam de serem bons ou maus filmes.



Já toda a gente sabe que eu gosto do estilo do realismo de cinema, não por nenhuma questão política ou ideológica, mas por uma questão técnica e artística. É verdade que a ditadura da União Soviética impôs e forçou militar, legal e politicamente, esta corrente de Cinema, desde a Mongólia no extremo oriente até à Polónia na Europa Central.

Assim, a grande concentração deste estilo encontra-se no cinema dos países do ex-bloco soviético, mas este estilo também existe no cinema francês (Ao, o Último Neandertal), holandês (O Holandês Voador), português (Aniki Bóbó), brasileiro, norte-americano, etc.

Por isso este filme brasileiro é um bom exemplo dessa corrente técnica e artística de Cinema.



O screenshot acima é o mais importante de todos, mostra os créditos iniciais do filme com vários agradecimentos.

É natural que um filme da corrente do Realismo, utilize apoios do Governo/Estado, desde a consultadoria histórica, conselheiros militares, cedência de largos contigentes (10 a 200 mil soldados) das forças armadas, para encenação de batalhas, etc.

Esta filme não retrata nenhuma batalha, e por isso não possui um contingente de 100 mil soldados para servirem de figurantes, com alto treino e ensaio. Mas tem apoio militar, devido ao personagem principal ser especialista artilheiro.

Se calhar os canhões até são alguma peça de museu, não sei... mas a imagem seguinte mostra o resultado da consultadoria militar do Brasil:



Para além do excerto que apresentei na ficha técnica, fiz apenas mais um, retrata a cena em que a mulher-índia do francês (ele foi obrigado a casar-se), lhe explica como ele irá morrer no ritual de canibalismo. Chamada de atenção para a cinematografia em que o cameraman anda livremente à volta dos actores, a filmar a cena de vários ângulos, com encenação total de 360º. Isto também faz parte da corrente do Realismo.



A título de curiosidade, o realizador Nelson Pereira dos Santos, tinha sido júri do Festival Internacional de Cinema de Moscovo, antes de ter feito este filme em 1971. Julgo que é justo dizer que ele teve acesso e conhecimento do estilo de cinema soviético, que nem todos os cineastas ocidentais conheciam.

Não estou, de forma alguma, a insinuar que este filme brasileiro de 1971 foi influenciado pelo estilo de cinema da URSS. Mas para "puxar a brasa à minha sardinha", confesso que quando vi este filme brasileiro, tive a mesma sensação positiva de quando vejo um bom/excelente filme da URSS, estilo que adoro verdadeiramente.

Mas o Nelson Pereira dos Santos também deu uma bofetada proverbial, na cara do cinema soviético, pela coragem mundial da nudez realística histórica.



Um filme obrigatório para qualquer português.

Algumas imagens que "sobraram" dos screenshots que tirei:









Entrevista recente (publicada depois de eu ter escrito a minha crítica) com a actriz Ana Maria Magalhães, a protagonista do filme que aprendeu a falar Tupi e aparece sempre nua, em nome do realismo cinematográfico:



Ainda não vi a entrevista, apenas espreitei.

Spoiler:

Publicado em 10/09/2013

A atriz Ana Maria Magalhães fala sobre quando conheceu Nelson Pereira dos Santos, sobre o processo criativo do diretor nos filmes em que trabalharam juntos, sobre Nelson enquanto diretor de atores e sobre a construção de sua personagem em "Como Era Gostoso o Meu Francês" (1971).

Depoimento gravado para a Ocupação Nelson Pereira dos Santos, em julho de 2013, no Rio de Janeiro/RJ.

Créditos:
Gerente do Núcleo de Audiovisual e Literatura: Claudiney Ferreira
Coordenação de Conteúdo Audiovisual: Kety Fernandes Nassar
Direção e Edição: Karina Fogaça
Produção: Paula Bertola
Entrevista: Thiago Rosenberg
Captação de imagem: Cassandra Mello
Captação de Áudio: Alexandre Turina

Trechos de filmes: "Azyllo Muito Louco" (1970) e "Como Era Gostoso o Meu Francês" (1971)
Conheço mal o cinema brasileiro, mas até agora o Como Era Gostoso o Meu Francês, além de ser o melhor filme brasileiro que conheço, é também um dos melhores filmes do mundo. Um filme muito avançado a nível mundial, que avançou bastante a 7ª Arte.  thumbsup

Um filme semelhante a este, também de qualidade extrema que aconselho fortemente, é o filme francês "Ao, o último neandertal" de 2010. Nesse filme recente, a actriz disse em entrevista que lhe custou muito aparecer nua, em nome do realismo cinematográfico. Quarenta anos separam ambos os filmes...
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Re: Como Era Gostoso o Meu Francês (1971) - Nelson Pereira dos Santos

Mensagem por pmcordeiro em Seg Jan 05 2015, 14:18

Também quem me conhece daqui sabe que sou grande fã de filmes de canibais. Apesar de não ser um filme canibal "puro e duro" como os italianos fiquei bastante curioso em relação a este filme.

Duvido que me venha a chocar ou a acrescentar algo de novo mas vou tentar arranjar isto para ver. Very Happy


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Re: Como Era Gostoso o Meu Francês (1971) - Nelson Pereira dos Santos

Mensagem por Zé da Adega em Sab Jan 10 2015, 06:36

pmcordeiro, o que se passa aqui é que não existe nenhum gore, como tu suspeitas. O canibalismo existe e é a espada permanente por cima da cabeça do personagem francês. Eu aconselho este filme a todos os portugueses, porque lida com os descobrimentos da forma mais realística que já vi no cinema. A onda do filme é o "survival movie"/aventura estilo Robinson Crusoé e não se trata de nenhum filme pseudo-intelectual chato e parado. Very Happy

O filme é falado em tupi, português (europeu) e francês. Os actores brasileiros tiverem de aprender a língua tupi dos índios, e os actores portugueses falam com sotaque da província, que é mais parecido com o antigamente do que o sotaque lisboeta actual.

A nudez permanente é outro conceito inédito do estilo do realismo de cinema, e será a única coisa que poderá "chocar", embora não me pareça que choque ninguém deste fórum. Smile

30 anos mais tarde foi feita uma adaptação em co-produção internacional entre Portugal e o Brasil chamada "Hans Staden", que é uma merda comparada com este filme, mas o que me deixa mais triste é a ausência de nudez (quando esta é necessária), estilo filme para putos PG-13, sinal de que o cinema retrocedeu moralmente entre 1971 e 1999.

Finalmente um comentário pessoal, também dirigido ao pmcordeiro mas que poderá também interessar a todos. Ele falou no conceito do filme chocar ou não, e eu desde criança que vejo filmes com gore e violência, mas um dos poucos que me chocou foi o chequista, um dos primeiros filmes russos lançados sem censura pelo estado, imediatamente após a desintegração da URSS, que faz a Lista de Schindler parecer a Rua Sésamo, pela quantidade de violência e desespero non-stop que me deixou mal disposto. pale

http://xploitedforum.vampire-legend.net/t2412-o-chequista-1992-aleksandr-rogozhkin

Se puder farei um update com um clip de uma cena violenta/chocante no respectivo tópico.

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Re: Como Era Gostoso o Meu Francês (1971) - Nelson Pereira dos Santos

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